CATARINA

      LUCAS

_NOVEMBRO, 2019

“Catarina Lucas é uma artista plástica da transição do milénio, da cidade do Porto. Com preferência ao óleo e ao pastel de óleo, formou-se na Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto, tendo concluído em 2019 o ciclo de estudos em Pintura. O seu trabalho traduz um olhar muito próprio sobre as problemáticas e questionamentos da contemporaneidade. Coloca nas suas telas a sua tensão face a uma geração, da qual faz parte e, em simultâneo, se procura distanciar. (...)”. 

 

via Leonor Amaral Teixeira

— Então, estamos aqui no teu estúdio, alguns meses após acabares a tua licenciatura. O que é que estás a fazer agora?

 

Estou focada em continuar a trabalhar no meu registo. A pintura não é uma coisa assim tão fácil de compreender e de abordar, e não é em quatro anos académicos que se consegue estar produtivamente consumado. Cada um tem a sua experiência, e chegou a hora de aprimorar a minha.

 

— Sentes pressão da tua parte e/ou da parte de outros para produzir trabalho?

Sinto que há uma pressão social e financeira que nos consome, como o pequeno núcleo artístico e cultural que de certa forma acaba por nos limitar. Deste modo, atinge o nosso trabalho e não podemos aceitar que isto é um falhanço, mas sim uma vantagem.

 

— Já no último ano da faculdade estavas a trabalhar no teu próprio estúdio. Como é que foi essa transição? Sentes que trabalhas mais agora do que na faculdade?

Creio que sim. Crio quando quiser, sem ter aquele horário fixo, e não tenho que justificar nada. Na faculdade tinha mais facilidade em distrair-me e começava a stressar mais, mas aqui desligo-me do exterior e dedico-me inteiramente à pintura.  Estou numa fase mais experimental, de explorar mais o material e a figura. Há muitas maneiras de abordar o óleo antes de estabelecer um tema e objetificar a minha pintura.

 

— Na faculdade existe a interligação e partilha entre colegas, onde se pergunta “o que acham disto?”. Achas que isso te faz falta?

Eu ainda continuo a fazer isso com amigos na faculdade que fiz e que já tinha. Eles percebem o meu trabalho, eu interesso-me pelo trabalho deles e gosto de partilhar: procuro também opiniões e ver o que os outros estão a fazer. A partilha é essencial.

A motivação da Catarina vem da necessidade: “Não é a necessidade dos outros, mas sim a minha necessidade. porque eu gosto,  visto que quando dou por ela, já passaram não sei quantas horas” explicou a artista. Agora que tem mais tempo livre desde de que se licenciou, está sempre em busca de novas referências - sejam elas literárias, cinéfilas, mas sendo pintura a mais inspiradora - para ganhar inspiração para as suas obras. A pintora admite que está a entrar “numa fase que estou mesmo a aprender por mim”.

Apesar de que neste momento a artista está mais focada em construir um portfólio e a evoluir a sua pintura (que é o seu maior desafio), ela discute connosco a dificuldade de ser artista, manager e curadora. Muitas vezes são os próprios, que não só criam arte, como a promovem, procurar galerias para expor, organizam as suas próprias exposições, vendem os seus próprios trabalhos.  Catarina diz que muitos trabalhos são apenas experiências ou “são tão nossas que se calhar não queremos mostrar”, achando as peças demasiado pessoais para os olhos de outros.

“Se calhar falta-me a atitude de ‘Não é isto que eu quero mostrar; é isso que eu quero fazer’. Essa ‘confiança’ de escolha.”

No que toca às redes sociais, sabe dos prós e contras dessa ferramenta de divulgação para os artistas. Admite que é importante, mas que é difícil ser apelativa para um público não direcionado e que as redes sociais são tão momentâneas que “não puxa mais para além daquilo, não sei se as pessoas acabam por ter curiosidade por ver mais”: traz apenas um “mini-prazer” mas que acaba muito rapidamente.

Mas mesmo enquanto está a desenvolver o gesto na sua pintura, Catarina acredita que tem corpo suficiente para expor numa galeria. O seu desejo de expor também está relacionado com querer afetar os espectadores com o real:

“A melhor coisa é mesmo mostrar e divulgar o trabalho nas dimensões reais, com as texturas reais, as cores reais, algo que o Instagram não capta ou até transforma. 

Só queres dizer ‘foi isto que eu criei, nesta superfície, com estes materiais e tem este impacto neste espaço’.”

 

 

— Sobre o teu trabalho, qual é o teu processo atual?

Neste momento, estou a experimentar pintar com o espelho. Pus a tela no chão, coloquei um pincel na ponta da prótese para criar mais distância e assim conseguia ver e desenhar-me ao mesmo tempo. 

 

Tenho sempre livros como referência, mas em termos cromáticos eu experimento e vejo o que resulta melhor para cada peça; Estou a tentar fugir dos frios neste momento porque tenho tendência de os usar e agora estou a “jogar” com as cores quentes. Também acho interessante trabalhar sob fotografia. São experiências e gostava de trabalhar com isso em dimensões maiores.

 

O meu trabalho parte da representação, mas depois também expande para o imaginário em termos espaciais e cromáticos. É tudo de experiências e de acumulações de trabalhos que já fiz que me levaram aqui.

Trabalho muito a partir de livros, fotografias e pinturas e recentemente comprei um espelho onde os próximos trabalhos serão através do meu corpo, de várias posturas.

 

Não os considero autorretrato, só preciso do meu corpo, da minha forma, das minhas posições como um instrumento. Não somos assim tão diferentes e não quero transmitir a minha pessoa: não é isso que está agora em causa.

Sem Título 27x20cm, óleo e pastel de óleo sobre cartao, 2019

Sem Título, 34x22 cm, oléo sobre madeira, 2019

Catarina Lucas espera, num futuro próximo, conseguir dinamizar o seu trabalho ao arranjar novas oportunidades para o expor, com especial interesse nas principais capitais europeias, no entanto desejosa de partilhar e colaborar em diferentes tipos de possibilidades que surjam para mostrar as suas obras.