UM EXPLORAÇÃO AO LIMITE DO DESCONFORTO, INTIMIDADE E CORPO. 

Inês Carneiro é uma performer com 20 anos de idade que reside no Porto. Com treino em ballet clássico e em dança contemporânea, Inês falou com a LEAP sobre a sua relação com o público e o seu percurso enquanto uma jovem artista.

Sempre gostei de me mexer e de dançar, desde os quatro anos que danço. Mas como não havia escola profissional/conservatório de dança no Porto para começar os meus estudos profissionalmente, decidi experimentar artes. Mantive o ballet clássico presente (pela Indance - Escola de Dança), e terminei o secundário na Soares dos Reis em audiovisual. Fui aceite em Escultura (Belas Artes, Lisboa) mas percebi que não queria de todo fazer algo que não estivesse ligada ao corpo. Decidi então fazer um Gap Year, ingressando no Conservatório de Dança do Vale do Sousa em Paredes, onde fiz um ano intensivo de ballet clássico. Em maio de 2018 fui aceite pela faculdade PERA (School of Performing Arts, Chipre) e mandei-me para o Chipre, estudei lá durante um ano. Apesar do ensino na PERA ser excelente, decidi voltar para Portugal e tentar teatro, visto que o meu trabalho se começou a direcionar muito para teatro físico (mais do movimento em si). Entrei na ESMAE em 2019, sem nunca ter feito teatro na vida, onde me encontro até ao presente.

— Podes explicar um pouco de onde vem o teu interesse pela performance?

— Em que projectos é que estás envolvida recentemente?

  

Por causa da distância, abriu-se uma oportunidade com pessoal da ESMAE (bem como pessoal de fora), de fazer uma peça de teatro radiofónico, baseada na obra Para Acabar com o Juízo de Deus de Antonin Artaud. E de resto é em casa, mas como prática pessoal. Agora parou tudo, as propostas pararam todas. No início deste ano houve um boom de propostas, uma performance com a curadoria do coletivo Espaço 399, onde fiz uma performance duracional - "Sou melhor vivência na boca dos outros". Mais tarde tive um convite por parte da Beatriz Sarmento para participar na exposição ACTO com a sua curadoria (na Faculdade Belas Artes - Porto), expondo registos fotográficos/elementos cénicos de performances da minha criação, bem como a recriação de uma delas ao vivo. Está a ser um bocado difícil porque é ver as propostas todas que estavam a começar a acontecer, simplesmente a estagnar.

Fotografia de Barlas Sahinoglu / PERA - School of Performing Arts

Inês confessa ter uma “quase” crise de identidade enquanto criadora. Adora fazer e criar com as suas próprias mãos, apesar de apenas ter um background em audiovisuais e em performance. Gosta de fazer as suas criações, sejam elas figurinos ou quaisquer elementos cénicos, a menos que seja uma parceira assumida. A performer trabalha à volta do absurdo, sem pressão para uma grande produção, com preferência para os low-costs até. Admite que quanto mais cansada está, mais escreve, mais faz para “depois daqui a uma semana dizer ‘isto tem potencial, isto é fixe’”. Nas suas obras tenta unir o corpo com a palavra e criar uma interação próxima com o público, pois espaços grandes assustam-a e sugerem uma grande separação entre público e artista, preferindo sempre palcos mais pequenos “com pessoas sentadas no chão, uma coisa mais íntima, suja”.

No que toca a inspirações e referências, Inês fala de Marina Abramovic, pela sua ferocidade, e Joan Jonas, pelo ritmo de produção “alucinante” e descomprometido, combinado com todos os meios de criação. Ela explica também que após descobrir a performer Valeska Gert, as suas obras adquiriram um carácter infantil transformado em grotesco e absurdo, abordando ligeiramente inquietações pessoais. A artista tenta usar a arte como uma plataforma de impulsionar e mostrar através da harmonia (ou não) do corpo como meio de ideias, pela capacidade de expressar as frustrações e angústias do mundo com o corpo.

— Entre setembro de 2018 a junho de 2019 estudaste na PERA (School of Performing Arts no Chipre) para continuar a evoluir o teu trabalho artístico. Consegues contar sobre essa experiência? Como é que te fez crescer como artista?

Foi muito diferente viver lá, porque é tão pequeno que não tens muito por onde ir. Tens o mar, o mar é espetacular. Mas se queres ir, por exemplo, buscar leite de arroz ou levantar dinheiro sem comissões, tens de ir de boleia ou de autocarro até à capital (meia hora de carro) todos os fins de semana. A nível social foi muito complicado, o que também foi ótimo porque eu passava desde as 9 da manhã às 8 da noite na faculdade. Foi nesta altura que surgiu a Elisa (peça da cabeça gigante), através do tempo em que eu estava sozinha na faculdade porque não queria ir para casa. 

"O QUE CHIPRE ME DEU FOI A FORÇA DE CRIAR, A NECESSIDADE DE O FAZER EM TEMPOS TURBULENTOS."

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Fotografia de Salih Sevindik / @leophotographycyprus

— Consegues comparar o curso da ESMAE com o da PERA?

 

No Chipre era dança contemporânea, com cariz experimental, onde aprendi imenso num curto espaço de tempo. Eram tantos professores convidados, tanta informação, tantas práticas diferentes. O corpo começa a ter uma resistência muito grande e começa a responder a tudo muito rápido.

 

A ESMAE é claramente direcionada para teatro (interpretação). É intenso mas de uma forma (talvez) mais académica. Sinto que lá tenho que absorver o máximo possível de história e de aprendizagens anteriores, e de quem é este criador, o que é que ele fez, o que é que ele inovou… Um é corpo posto em prática, outro é mente. Espero eu, depois, fazer uma mistura boa disto.

Sobre o processo, Inês tenta sempre que este seja rápido e eficaz. O que tenta pôr em prática consigo mesma é trabalhar numa obra até que começa a “enjoar e a retirar o prazer de fazer”. Pára, deixa o projecto sozinho durante algum tempo, e volta a trabalhá-lo com uma visão diferente.


No que toca a actuar em peças originais e peças de outros autores, a performer explica que o compromisso que se tem numa criação pessoal tem que ser igual quando és apenas intérprete. Nos projectos de outros encenadores ou coreógrafos, as suas especificações são precisas e têm “que se meter no meu corpo”, mas sendo a própria a encenadora, o empenho tem que ser igual: “não posso desleixar só porque sou eu a criar”. E apesar de preferir trabalhar sozinha, a artista sente a necessidade de criar com outras pessoas, e aprecia imenso ser apenas intérprete, dirigida por outro. “É um privilégio teres alguém que te quer como parte do seu trabalho”, diz a performer.

Trailer da performance "Through the Mind of the Beast"/ interprete: Inês Carneiro / criação: Inês Carneiro / música: Jesus Never Failed me Yet, Gavin Bryars & Tom Waits / video: Barlas Sahinoglu / Peça criada para o espetáculo de final de ano da Faculdade PERA - School of Performing Arts

— Achas que existe competição na tua área?

Sei que é real, mas gosto de acreditar que não há competição. Não faz sentido haver competição. Eu venho do mundo do ballet clássico, que é claramente um mundo de comparações, e por isso tornei-me muito competitiva. Quando mergulhei na Dança contemporânea/performance, percebi que já não é bem assim. Há mais entreajuda, porque existe individualidade e prática pessoal, e quando começa a surgir individualidade, tu percebes que não é justo haver uma comparação. Quando se trabalha com o corpo a tua maneira de agir vai ser sempre diferente do outro. Acho que esta competição também é alimentada pelos processos de audição, de seleção de projectos, de atribuição de notas e valores a uma criação artística.


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"PORQUÊ HAVER COMPETIÇÃO ENTRE 

PESSOAS QUE TÊM O PRAZER DE FAZER O MESMO? O OBJETIVO DISTO TUDO NÃO É UMA INTERLIGAÇÃO DE  FORMA A PODER CRIAR CENAS BRUTAIS?"

— Como referiste anteriormente, queres estar em contacto com o público num espaço mais pequeno e íntimo. Porquê essa preferência, e porque é que te é essencial esse contacto?

Para mim o pensamento de que o público paga bilhete, senta, vê e vai-se embora é demasiado ultrapassado, porque o espectador nunca está parado. Gosto de pegar no limiar do desconfortável, que é algo que acontece sempre que entras num espaço onde não tens a querida cadeira para estares confortável, e onde acabas por te encostar à parede a rezar que não peguem em ti, com medo de não saberes reagir. A realidade é que esse instinto de reação é-nos intrínseco, mas estamos completamente normalizados a sentar, calar, ver, sair e (talvez) comentar, através da identificação pessoal. Ao perceber isto, tive a necessidade de romper esse código de ética dos espaços culturais. Comecei a sentir a urgência de pôr as pessoas conectadas à ação que estão a presenciar. Acho interessante usar a proximidade desconfortável para o público realmente reagir como quer e não como “deve”.

— Sofres de alguma ansiedade performativa? Se sim, o que fazes para tentar superá-la?

Sim, sempre. A minha ansiedade performativa não é sobre o meu trabalho ser aceite, tem mais a haver com o fazer justiça à minha prática. A forma como lido com a ansiedade é comer chocolate antes de entrar em palco e lembrar-me que “ninguém paga bilhete para ver uma pessoa insegura”. Acho que essa ansiedade é necessária, quer dizer que te importas. A ansiedade criativa surge porque tem que surgir, porque é natural. É impossível tu criares algo e não teres um momento de estagnação. Claro, choras uma meia hora (no meu caso) e duvidas do teu processo, mas depois riste-te e vês um vídeo que te motiva, ou uma criação mesmo muito boa de alguém e pensas: “que cena fixe, também quero fazer uma cena assim”, e continuas a criar.

Inês explica que, para ela, as artes performativas são as ligações estabelecidas entre criador e público. É uma conversa aberta e presente onde um determinado número de corpos se encontra num espaço e presencia um acontecimento, mas no caso de vídeo-performance, a artista foca e trabalha sobre as reações que quer que o espectador tenha. Com o recente boom de criações virtuais durante este período, Inês receia que esteja a dar voz à ideia de que a sua profissão e criação é algo que possa ser feito à distância, um conceito que é contra. Em qualquer evento performativo, tudo foi feito com intenção - o espaço, a duração, a intensidade - mas a partir do momento que o público físico é substituído por ecrãs e distância, o controlo e ambiente criado pelo autor desaparece. Inês, durante o isolamento social, experimentou fazer live-streams, mas a falta de olhos reais destrói parte da essência do seu trabalho. E para a performer, é muito importante que as suas ideias, inquietações e o seu prazer passe para o espectador.

"SE OS CORPOS PODEM ESTAR À BEIRA UNS DOS OUTROS, PORQUE É QUE NÃO HAVERÃO DE ESTAR? SE EU POSSO TOCAR, PORQUE É QUE ME RETRAIO PARA NÃO TOCAR?"

Improviso em quarentena, 2020

— Como imaginas o teu percurso após a faculdade?

Sei lá, até tenho medo em pensar nisso. Enquanto criador e artista tens que ter um estatuto de trabalhador, porque é um trabalho, é uma profissão. É triste pensar que, por causa da questão de arte vs economia, existe esse pensamento de “tens que sair da faculdade, encontrar um segundo emprego para puderes exercer o teu primeiro porque provavelmente não vai pagar as contas ao final do mês”, é terrível. E é um pensamento que já está completamente metido na nossa sociedade (na nossa e em muitas). Tem que ser deitado abaixo, não deve nem pode existir a avaliação do “trabalho útil”. Não faço um papel na sociedade tão ”activo” como outros, mas não deixo de ser activa na sociedade, por meios diferentes.

Inês conta a sua missão pessoal de fazer o boom cultural que a nossa e futuras gerações merecem, porque considera que existe imenso talento em Portugal. Gostava, no futuro, de realizar trabalhos no estrangeiro e de ter a oportunidade de evoluir lá, mas ao mesmo tempo quer manter uma rede de ligação cá para poder contribuir para a cultura portuguesa. Seja ficar em Portugal, ou viver no estrangeiro, ela explica que “se não formos nós, não vai ser ninguém”.