— Sentes pressão do teu querer morar sozinho e balançar o teu trabalho de part-time com o teu trabalho de freelancer?

 

Sinto. É muito diferente de quando estava a morar com a minha avó, e fazia do sótão dela do meu atelier. Há lados positivos de morar sozinho – tenho mais paz de espírito, organizo-me como quero, mas depois tenho que ter um trabalho para me conseguir sustentar e acabo, por sentir mais pressão na produção e no tempo para conseguir fazer tudo; Acabo por também ter menos tempo para produzir as minhas coisas.

Isso tem sido complicado e ainda estou a tentar perceber como conseguir equilibrar melhor as coisas para não estar sempre stressado; ainda não consegui perceber se estou confortável com esta minha rotina, mas tenho conseguido fazer algumas coisas à parte, para também não estar sempre preso ao part-time.

— Como é que foi trabalhar em projetos da faculdade mais “restritos” com a tua linguagem?

Quando vim para design, eu não sabia o que aquilo era e o que eu queria dali, por isso estava recetivo a tudo que via e aprendia; rapidamente percebi que odiava Tipografia  – e aí já 'morre' metade do design porque é uma área bastante forte no design.


Já o segundo e o terceiro ano foram os mais castradores: éramos forçados a fazer trabalhos específicos, que por um lado compreendo, mas por outro aborrece-me.
Felizmente, o último ano foi ,pessoalmente, o ano mais acessível no que toca ao que eu queria e podia fazer pois não tinha limites de como interpretar as propostas e isso soube sempre bem, assim conseguia fazer os projetos que queria fazer.
        
Sinto que a licenciatura é muito vaga: é muito boa por ser vaga para puderes ter contacto com várias áreas, mas a partir do momento em que queres especializar-te em algo, tornas-te obrigado a concluir trabalhos pelos quais  não sentes a mesma paixão. Tem os seus quês, mas é bom ter contacto com muita coisa e conseguir tirar pequenas coisas dessas para mim e para que o quero fazer.

A faculdade foi incrível para mim a melhor coisa que me aconteceu na vida até hoje.

"Foi aí que eu percebi exatamente o que eu gostava de fazer na vida, o que é que eu podia fazer profissionalmente e que me preenchia."

"Amor de Mel, Amor de Fel "- 2019, 21 x 29,7 cm, colagem, pastel de óleo e lápiz de cor

— Sentes falta da comunicação que existia enquanto na faculdade?

Sinto mesmo muita falta. É um ambiente completamente diferente estar na faculdade e estar fora; acho que isso é a minha principal fonte de pressão 'pós-faculdade'. Sinto mesmo falta desse ambiente de trabalho, de estar toda a gente focada, porque isso estimulava-me imenso.

 

Mesmo estando a morar com outros dois amigos e colegas que também estudaram comigo, não temos grande contacto entre os projetos de cada um – por um lado também não faz muito sentido por termos por não termos os mesmos interesses em projetos, mas, por outro era algo que na faculdade não sentia, porque encontrava sempre alguém que estava interessado ou recetivo ao que estava a fazer e vice-versa.

Esse interesse despertava quase uma pseudo rivalidade que me mantinha motivado, e isso é algo que já não vejo tanto. Agora quando vejo as pessoas a lançar os seus projetos, essa 'pseudo rivalidade' existe, mas não é tão estimulante como estar todos os dias naquele ambiente criativo constante - todos na mesma sala a trabalhar e o facto de estar farto de olhar para  os meus trabalhos e puder olhar para os dos outros interessava-me.


Acho que ainda preciso de mais empenho para sobreviver ao “pós-faculdade”. O estímulo que se tem fora da faculdade, se não fores tu a procurar, ninguém te o dá, enquanto que na faculdade, há sempre coisas que estão a acontecer que te obrigam a veres e a seres estimulado.  

 

— Qual é a tua opinião em relação à arte e redes sociais?

Acho que há partes que fazem sentido serem expostas, como há partes que não. É uma maneira fácil para tu conseguires pôr um produto, uma visão ao contacto com outros, mas também é difícil rentabilizar dessa forma.

Se quiseres experimentar alguma proposta nova, é ótimo, porque não estou à espera de nada em troca, a ideia é só da partilha da mensagem. Contudo também podes envolver -te num ramo mais comercial e conseguir vender as tuas coisas, o que também acho válido; Agora, isso não acrescenta nem retira valor à arte, é tão válido como ir a uma galeria.

(A questão das dimensões, materiais e sensações que as obras de arte podem ter, também são importantes para o Lince, no sentido de que aí, apesar das redes sociais serem um meio que “faz parte do tempo em si, em que partilhamos tudo constantemente”, não podem ser parâmetros de avaliação da obra por se estar a ver a partir duma imagem.)

— O que é que te continua a motivar a trabalhar?

Ver os outros a trabalhar nos seus projetos dá-me forças para continuar também. Parecendo que não, ver o sucesso dos outros provoca em mim algum muito positivo.

"Diria que é a única minha verdadeira paixão, se eu não conseguisse fazer isso não sei o que podia fazer mais neste mundo. É algo natural, que eu preciso de continua a fazer porque simplesmente preciso.”

"Tenho Medo de Nunca Voar "- 2019, 21 x 29,7 cm, grafite e pintura digital

A questão da empregabilidade no ramo da ilustração para o Lince também é uma preocupação. Ele defende que infelizmente não existem trabalhos suficientes para sustentar ilustradores, daí a maior parte deles terem que gerir a sua vida artística com um trabalho de part-time.

Um grande problema que existe, apontado por Lince, é o facto de ainda não haver muita compreensão por esta paixão que não é partilhada por pessoas de outras áreas e este drama existente nas áreas mais criativas. Lince não pretende invalidar outras paixões mais “tradicionais”, mas sim dar valor à sua: “a nossa paixão ser tão específica para produzir, para trabalhar, para sermos pessoas criativas”.

A essa falta de compreensão, o ilustrador acrescenta o menosprezar que áreas criativas recebem por parte de outras. É algo que lhe faz confusão, principalmente na sua área de Design de Comunicação: “em termos de comunicação, tudo tem que passar por mãos de pessoas criativas”, e por isso, esta falta de entendimento entre as áreas é ilógico para o artista. Reconhece também que nem todos os designers optam por trabalhos mais ligados à produção e comunicação direta com o público, havendo uma percentagem que, tal como Lince, optam por trabalhos mais criativos e conceptuais, onde é possível explorar interesses do próprio artista, que são refletidos na cultura.

— O que queres que o teu público sinta/veja no teu trabalho?

Eu tenho um trabalho bastante específico para uma comunidade bastante específica, com a  qual também me identifico É algo que me é bastante gratificante de produzir saber que tenho pessoas que se identificam com o que eu faço e que valorizam o meu trabalho. O facto de conseguir dar voz a quem necessita é bastante importante. Agora que vivemos num mundo diferente, devem existir estas narrativas, historicamente censuradas, e eu quero dar-lhes protagonismo porque finalmente elas podem ter essa voz.  

"Apesar de haver muita gente que não gosta de ouvir a nossa voz, são exatamente essas pessoas que devem ouvir."

"Heart to Break" - 2019, 21 x 29,7 cm, grafite e pintura digital

Lince Rebelo termina a nossa conversa comentando que no futuro quer continuar a trabalhar no mundo da ilustração, mas não pretende ficar por aí, querendo entrar em contacto com outras áreas tais como cenografia e têxtil. O artista diz-nos que está aberto a todas as oportunidades de exposição que lhe possam chegar,  ativamente procurando-as, e desejando que um dia possa viver da sua paixão: ilustração.