EQUILÍBRIO E RASCUNHOS DE UM ARTISTA EM DUALIDADE.

Nuno Sarmento é o primeiro entrevistado na segunda edição da LEAP, “(Re)Ação”. Arquiteto em formação, Nuno equilibra uma vida de estágio profissional num estúdio de arquitetura com a sua paixão pelo desenho. Em formato de vídeo-conferência, entrevistámo-lo para saber mais acerca do que o motiva para continuar a sua prática artística e profissional.

— Gostaríamos que referisses um pouco do teu percurso académico e sobre o teu processo de trabalho adoptado em vigor.

  

Acho que a relação com o desenho é o ponto de partida, desde que me lembro tenho uma grande vontade de desenhar e de criar. No 12º ano comecei a perceber que gostava realmente disto, que não queria parar. Simultaneamente, sentia uma vontade enorme de resolver problemas e ter um desafio maior que o próprio desenho - foi aí que surgiu a arquitetura, como um equilíbrio entre resolver problemas e poder ser criativo ou ter uma liberdade criativa. Eu sempre fui grande adepto de explorar o desenho à mão e, portanto, o desenho e a arquitectura sempre se acompanharam.


Neste momento estou a fazer a tese de mestrado e a estagiar num escritório em part-time. Ao mesmo tempo, também estou a desenvolver projetos pessoais, fora da arquitetura, onde tem por base o desenho. 

— Como é que te defines neste momento? 

  

Apesar da minha grande paixão pela arte e pelo desenho, a arquitectura e o meu percurso académico acabaram por ter um peso maior. Neste momento, como ainda não acabei o curso, vejo-me como um aspirante a arquiteto. Não me considero artista porque acho que isso envolve uma pesquisa pessoal e uma dedicação muito maior à arte, enquanto o que eu faço é uma integração da exploração artística dentro da minha prática.

Sinto que tenho de conjugar as duas práticas, com um pé em cada lado, explicando melhor, se passar muito tempo num, tenho que ir para o outro, e assim vice-versa. Portanto, defino-me num ”espaço entre”.

— Consegues diferenciar a área artística e área de arquitetura, colocar em dois lados distintos?

  

Em primeiro lugar, eu separo-as. A arquitetura, apesar de na sua finalização, concretização e experiência apresentar muitas componentes artísticas, a grande maioria da sua procura e desenvolvimento é técnico. Costuma-se dizer que a grande diferença é que a arquitetura responde a uma função muito específica, e a arte não. Essa liberdade artística não existe na arquitectura porque, acima de tudo, a arquitetura é para servir, no entanto quanto mais subtilmente cumprir a sua função melhor. Enquanto que, a arte, por estar livre (e se calhar é por isso que a ponho num patamar mais elevado), tem uma responsabilidade e um peso de quem a faz muito maior para si próprio, não tem amarras, não tem condições.


O arquiteto já começa com um problema muito bem definido, a arte começa do vazio e do próprio, e portanto, acho que sim, as duas são distintas e penso que é saudável. Tentar aproximá-las é positivo, achar que são o mesmo é um erro.

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Cineclube em Campanhã - Projeto: Corpo: betão armado, cobertura: estrutura metálica, 5000 m2, 2018

Abrigo para Viajantes em Lavaux - Projeto: corpo: estrutura metálica, cobertura: estrutura metálica e madeira, 260 m2, 2019

No que toca ao processo, na arquitectura e na arte, Nuno concorda que há pontos onde estes se tocam. No seu processo pessoal, o desenho é a base em ambas para visualizar e antecipar o que vai criar. Para ele, o desenho é o ponto de partida, mas admite que é “uma forma de ver muito pessoal, muito minha”, pois existem outros métodos como colagem, fotomontagem, ou até mesmo maquetes e ferramentas digitais que também são instrumentos e procuras artísticas válidas tanto na arquitectura como na arte.


Prosseguindo a sua linha de pensamento partilha com a LEAP que uma obra de arquitetura possui um processo mais longo, onde é necessário o envolvimento de mais pessoas, como equipas de engenharia, entre outros, focando esta comunicação essencial entre as duas partes.

"O processo do artista está muito mais à volta do criador e o que parte dele, nasce dele e acaba nalgum lado; está livre no seu processo e se calhar por vezes até é mais pesado por não ter este feedback, esta comunicação, e acaba por ter outro tempo e muitas vezes mais rápido e com outra finalidade.”

Nuno explica as semelhanças entre trabalhar num projecto de arquitetura e trabalhar em projetos mais ligados ao desenho, como no seu recente projecto com Noiserv, onde colabora no design e identidade do seu próximo álbum. Ambos são à base do desenho, como rascunhos, como tentativas e erros, como um método de pensamento, onde a desconstrução é chave para executar a melhor ideia (referindo-se tanto à arquitectura como à colaboração). Em ambos consiste em “ter ideias e pô-las imediatamente cá para fora - porque desenho é isso: colocar para fora o que já vemos cá dentro”.


O que faz a realização de um projeto como o com Noiserv ser tão idêntico a uma obra arquitectónica é o facto de ser ele próprio a realizá-lo. Tal como um artista que desenvolve a sua prática em diversos ramos, representando-se sempre em qualquer área artística, Nuno aqui revê-se, como uma representação sua mas aplicada em diferentes contextos.

Nuno partilhou connosco a importância da arquitetura como uma forma de expressão – “uma das mais complexas formas de expressão”, diz. Acrescenta que deve existir uma dimensão, onde o autor se consegue expressar numa ideia, numa procura, e expressar uma vontade onde todos os elementos, de forma coerente, o ajudem a alcançá-la.

"É ISTO QUE ESTOU À PROCURA - TORNAR ALGO QUE JÁ ESTEVE DENTRO DA TUA CABEÇA NUM LUGAR FÍSICO, HABITÁVEL, ONDE PODES APENAS ESTAR, OU SER ATÉ LEVADO PARA UM OUTRO LUGAR. ESSE É O MEU GRANDE OBJECTIVO: EXPRESSAR-ME ATRAVÉS DO DESENHO DO ESPAÇO."

Sobre a presença de um público no seu trabalho, quer na arquitetura, quer no desenho, o nosso convidado expõe o último como uma ferramenta quase instantânea de comunicação e feedback com o público. Já na arquitetura, afirma que o contacto com este apenas existe “no momento em que o cliente puser a chave na fechadura e entrar”.

— Acreditas que a arquitetura ou qualquer outro trabalho artístico necessita do envolvimento de um público para que se tornem “válidos” ou legítimos?

  

Penso que uma obra não está completa até que alguém a experiencia. Eu acho que o derradeiro efeito artístico acontece no momento em que alguém se consegue relacionar com a obra. Para mim, a palavra “relação”, neste caso, tem imensa importância porque essa relação é o momento em que a obra dá algo de si ao público e vice-versa —  o momento em que te consegues projetar na obra e a obra se projeta em ti, é o momento em que, para mim, a arte acontece. Antes deste momento não me parece que se possa falar em arte ou em arquitetura, é um esqueleto, uma estrutura, algo suspenso no tempo à espera que possa realmente acontecer. 


A arquitetura sem público, acaba por ser um conjunto de materiais que foram postos em cima um dos outros. Em relação ao desenho não é possível fazer um desenho sem ter pelo menos uma pessoa que já viu aquilo, neste caso o artista, que acaba por ser a primeira pessoa a experienciá-lo. O público é necessário no momento da apresentação da obra, não da apresentação formal, mas do momento em que a obra possa ser vivida.

Nuno sente que o seu trabalho como arquiteto não é fazer com que o público entenda as decisões no seu trabalho, mas sim senti-las à vontade no espaço que desenhou; acrescenta ainda que “na relação com as pessoas que me são próximas, tentar ensiná-las a ver isso é o meu trabalho”.

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Isolation – The caves we didn’t chose, desenho com caneta de ponta fina, 29,7x42 cm, 2019

Dada a circunstância singular que temos estado a viver nestes últimos meses, quisemos discutir a situação actual (COVID-19) com os artistas convidados.

Inicialmente, o arquiteto tentou continuar com a sua rotina tentando não se deixar afetar pela pandemia, mas rapidamente essa estratégia deixou de fazer sentido: “seria muito ignorante se decidisse olhar para o lado e fingir que não se passava nada”. A partir do momento em que finalmente a aceitou por completo, decidiu criar o projecto “Rolo da Quarentena”, de forma a reflectir este momento histórico que nos afeta a todos. Como o nome sugere, este rolo contínuo necessita da participação e partilha do público para retratar momentos caseiros, para mostrar que todos estão a passar pelo mesmo, e criar essa memória coletiva e este tempo comum a todos, elementos essenciais que gosta de trabalhar no desenho.

Entretanto, durante o confinamento, Nuno foi convidado para participar no projecto “Sebenta da Quarentena”, promovido pela Mistaker Maker. Para este projeto,  um grupo de 40 artistas portugueses, em quarentena,  foi desafiado a criar um desenho, um ilustração, um jogo ou até mesmo um passatempo para serem integrados numa sebenta que, foi depois distribuída por todos os idosos de Portugal. A Mistaker Maker pretendeu com a sebenta trazer alegria e ajudar a combater a solidão que muitos idosos estão a sofrer durante estes tempos incertos, uma iniciativa que o arquiteto elogiou na entrevista.

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Sebenta da Quarentena, 2020

— Como vês a arquitetura a mudar no pós-COVID?

  

Penso que ainda é muito cedo para estar a prever como os mundos da arte e da arquitetura vão ser afetados e alterados como o conhecemos hoje; Agora, uma coisa é certa, a tecnologia vai definitivamente estar bastante mais presente em tudo.

Já se pensou, por exemplo, na própria concepção duma casa, começar a antever um espaço próprio para o teletrabalho, que num programa de uma casa de hoje em dia não aparecia em momento algum, mas que agora já é algo que se tem de ter em conta. Porque se virmos bem, uma casa não é desenhada para uma pessoa estar lá 24/7, mas sim é um espaço em que, de manhã tomas o teu pequeno almoço e depois vais trabalhar, e só depois, ao final do dia, é que regressas para descansares.

Mas isto agora abriu todo um novo leque de possibilidades e formas de pensar diferentes sobre o que já se fazia. Por exemplo: entregas ao domicílio. Será que agora deveria ser construído nas frentes do prédios um anexo próprio em que tu possas ir lá buscar a tua encomenda, sem haver contacto com a pessoa que te entrega? Ou até mesmo drones que te deixem as encomendas à beira de tua casa, como é que isso vai alterar por exemplo o desenho duma janela? Ou seja isto se calhar já são problemas bastante específicos, mas que no futuro vamos que os ter em conta, e a tecnologia vai ter um papel bastante importante nisso, no desenvolvimento de uma casa.

Ao fim ao cabo, eu espero que faça com que as pessoas valorizem muito mais as coisas fisicamente, ao mesmo tempo que se valoriza o processo acompanhado pela tecnologia. Mas mais importante será a apreciação de o ver na hora e na vida real, seja arquitetura, desenho, escultura, pintura, concertos…

— Sentes que a tua relação com o público também mudou?

  

Por acaso, sim. Sinto-me muito mais próximo do público porque, com este projeto do rolo, recebo fotografias de pessoas que não conheço, onde partilham os seus momentos mais íntimos,  de livre vontade comigo para fazerem parte de algo maior.
Eu, de repente, sou uma ponte para algo maior e isso é uma sensação ótima, mas também é uma responsabilidade de fazer mais. Depois também se abate aquela sensação de falta de força de exaustão, de lentidão para fazer as coisas.

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Um Rolo de Quarentena, 2020

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Anteriormente, o arquitecto já tinha trabalhado em projectos onde desenhava com um público ao vivo. Mas durante estes últimos meses, o convidado tem desenhado em vários live streams. Quando pedimos para descrever essas duas experiências, Nuno admite que existe uma grande diferença naquilo que pedia do público nos dois ambientes. O live stream surgiu como uma ponte de expressão, onde o público dizia o que queriam ver desenhado - neste caso a fonte de inspiração eram as pessoas. Já nos desenhos ao vivo, o público apenas era um espectador, não existe o elemento de participação, aí a criatividade parte puramente dele. Nuno confessa que sente mais pressão nos live streams pois neles “tens de ter um processo de pensamento e imaginação, e quase uma antevisão daquilo que vais fazer muito mais instantâneo”.

Ele admite que antes criar neste formato, a sua relação com o público, no que toca ao desenho, nunca foi muito pessoal. Mas desde a quarentena, com as pessoas a passarem mais tempo nas redes sociais, surgiu um público abstrato que faz com que sinta uma nova visibilidade que não tinha antes. “Contudo, sobre as relações mais pessoais, a tecnologia permite algum contacto, mas não se compara sequer ao que é estar fisicamente com alguém”.

— No futuro, vês a junção do mundo da arte com o da arquitectura? Ou estás mais inclinado para um?  

  

Algo que estou a aprender é que, com calma, consigo fazer os dois. Gostava, no futuro, de continuar a explorar arquitetura de modo a conseguir ver e experienciar fisicamente uma obra minha, ao mesmo tempo que continuo a fazer os meus desenhos.

Acho que neste momento, apesar do processo ser muito semelhante para os dois, sinto que o desenho se afastou para representações mais reais, enquanto que, a arquitetura vai em explorações materiais. Espero conseguir unir estes dois caminhos, mas sei que estou cada vez mais próximo de uma procura artística dentro da arquitetura. Sinto que se fosse construído, eu estava quase a viver um desenho meu, como se o desenho ganhasse vida.

"UMA COISA QUE EU GOSTAVA MUITO DE VER NO FUTURO ERA UMA LIGAÇÃO AINDA MAIOR ENTRE OS DOIS, EM QUE O DESENHO CONSEGUISSE AJUDAR-ME A EXPLORAR A ARQUITETURA, E QUE A ARQUITETURA ME REVELASSE COISAS QUE O DESENHO NÃO CONSEGUE".