RITA

   SILVESTRE

_NOVEMBRO, 2019

Rita Silvestre é uma designer da Maia, Porto que finalizou a licenciatura em Design de Comunicação na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Fascinada por aventuras, Rita procura sempre novas experiências para crescer e evoluir como designer. Ela acredita que “good design is done with pleasure" (bom design é feito com prazer) e está presente em todo o seu processo criativo. Durante o seu estágio em Amesterdão, entrevistámos a Rita via vídeo-chamada para conhecer melhor as suas opiniões e experiências de vida.

— O que estás a fazer agora, pós-faculdade?

Quando acabei a faculdade decidi candidatar-me para estágios fora de Portugal. Consegui este estágio profissional na VBAT, em Amesterdão, enquanto creative intern: é uma empresa de Design Gráfico onde podia optar entre identidades corporativas ou packaging (áreas em que são especializados). Aqui tenho um papel mais forte que permite-me ir mais além do que eu esperava. Acho que na Holanda eles pensam no estagiário como uma ferramenta fundamental que ajude a florescer a empresa na produção conceptual e de brainstormings de projetos.

— O que é que te levou a fazer um estágio fora de Portugal?

No meu terceiro ano participei no programa Erasmus+: conheci novas culturas, novas maneiras de pensar, uma língua diferente e toda essa experiência alargou os meus horizontes, não só na minha vida pessoal como também a uma minha vida profissional. A forma que o design é abordado em Belas Artes é diferente da forma que aprendi em Inglaterra na altura, mas ambos enriqueceram o meu trabalho. Então decidi ‘é agora ou nunca!’: fora estás a aprender todos os dias, não só a nível profissional, como a nível pessoal, e acabas por sentir uma progressão muito mais acentuada, e é isso que vim procurar cá.

 

Sobre os prós e contras de fazer o estágio fora, Rita explicou-nos que, relativamente aos prós, na Holanda o cargo que exerce é considerado como uma ferramenta muito importante, sente que o seu esforço é reconhecido. O estilo de vida que Amesterdão lhe proporciona também contribui para o seu conforto, salientando que o mindset é bastante avançado.


No entanto, referiu as dificuldades com a língua: apesar da acessibilidade na VBAT em específico (empresa mãe britânica), sente que em alturas quer dizer ou expressar algo e lhe é difícil. Notando a relativa facilidade tendo em conta a área que se enquadra, “no Design (e na Arte) o pessoal comunica-se de alguma forma e acabas por dar sempre a volta”.

Rita Silvestre
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— Falando da parte financeira, e comparando com Portugal, consideras que o salário é mais adequado?

 

Sem dúvida, eles cá são super equilibrados e sabem balançar bem as coisas. Imaginando que o salário mínimo cá é 1.600 € e que pagas 700 € por um quarto, ainda tens dinheiro para pagar as contas e para comer, tens dinheiro para sair, para beber uma cerveja com os teus amigos (mesmo que a cerveja seja quase um rim). Essa estabilidade financeira também te faz um bocadinho mais feliz e mais confortável.

 

No último ano da faculdade, a designer fez um estágio de contexto académico no Studio Eduardo Aires e falou-nos das diferenças entre os dois estágios (estúdio vs. empresa). Nota um claro respeito pelo Designer português e o seu estilo impregnado pelo qual os trabalhos se regem. O foco principal do studio é editorial e branding, onde foram ensinadas inúmeras regras dos ‘porquês’ e as suas funções.  

 

E no verão de 2018, Rita estagiou na SONAE, empresa portuguesa de grande dimensão. Neste trabalho aprendeu principalmente sobre business, onde o Design é dependente dos restantes departamentos para o seu desenvolvimento.

A designer entende que numa empresa como a SONAE, o cargo do designer tem menos importância pois é algo que a seu ver é ‘substituível’ pelo marketeer, apesar de enfatizar que o ideal seria ambos trabalharem em sintonia e simbiose. 

 

Reconhece na VBAT e no Studio Eduardo Aires uma dedicação mais dirigida ao design, enquanto que uma empresa como a SONAE tem uma perspetiva diferente pois envolve diversos departamentos — de marketing, de gestão e de gestão de projetos. Existe um estudo mais aprofundado e detalhado do trabalho pretendido e dos seus contextos, transmitindo para o departamento de Design o que é importante comunicar para produzir algo mais direcionado. Explica que esta perspectiva advém da sua experiência pessoal: “Eu sinto que o design cá (na VBAT) é uma ferramenta super essencial e assertiva, mas na SONAE, não há cá muitas partes super conceptuais“.

Rita Silvestre
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— Depois da licenciatura, sentiste ou sentes alguma pressão na decisão que tomaste?

 

Senti pressão comigo mesma enquanto estava a acabar a licenciatura, algo somente meu, porque não queria estancar, parar é algo que me faz confusão. Eu já estava a pensar ‘vou sair da licenciatura e vou entrar em mestrado’, por isso andei a pesquisar imensas faculdades e encontrei a que eu realmente queria, e ainda quero fazer: Mestrado em Gestão do Design no IPAM, para aprender mais sobre estratégia e marketing para aplicar no meu design. Mas depois, de repente, tive a ótima surpresa que o meu mestrado não ia abrir neste ano. 

 

Entretanto soube do programa ERASMUS+ Internship, e decidi enviar currículos feita maluca para imensos países até que recebi uma resposta da VBAT, em Amsterdão. Foi inacreditável, e assim que acabei a licenciatura, mudei-me logo para a Holanda. 

 

Claro que tive medo de sair da faculdade, mas  com a pressão e o medo ganhei essa atitude de me desenrascar.

Rita Silvestre
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— Falaste que o design corporativa é o que mais te interessa. O que é que no design te inspira para o continuares a fazer?

Rita Silvestre
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—  Sentes falta do controlo que tinhas nos teus projectos agora que tens de encontrar um equilíbrio entre o que o cliente quer e o design com que te identificas?

 

O que senti da faculdade é ‘o tema é este, agora faz’, e claro que aí tens sempre o teu cunho pessoal. Aqui no mercado de trabalho só tens total controlo se fores freelancer (no entanto é difícil sê-lo). Mas numa empresa, a nível visual, acabas por ser neutralizado de certa forma. O projecto tem de ser eficaz para o que o cliente quer e trabalhas com outros designers, por isso nunca vais ser capaz de identificar o meu trabalho ou o trabalho de outro designer. Mas eu acho isso bonito. Toda a gente acaba por ter uma influência no projecto, as ideias surgem e são desenvolvidas em equipa. Na verdade o trabalho em equipa é o culminar do melhor das ideias, é muito mais forte que cada um sozinho poderia criar. 

 

Ao ser questionada mais detalhadamente sobre a sua experiência com trabalho em equipa, especificamente para artistas freelancers, Rita reforça a necessidade de colaborações como método de crescimento e melhorar o seu portfólio através da contaminação das diversas áreas do Design.

— Queria que abordasses connosco um bocadinho sobre as tuas ilustrações, inspirações, etc.

 

Eu sempre tive uma relação um bocadinho estranha com a ilustração, nunca acreditei no que produzia. Também acho que como reconhecia que tínhamos muito bons ilustradores no nosso ano, nomeadamente a Amargo e o Lince Rebelo, tinha receio de divulgar e aventurar muito. Eu nunca vi a ilustração como compromisso, é como escrever para mim. Quando me dá um clique para escrever, eu não paro (noutro dia tive aqui no sofá três horas a tentar escrever)! E acho que ilustração também é assim, às vezes dá-me um clique sobre um assunto e eu faço uma ilustração. Ultimamente tento usar a ilustração para resolver assuntos e crio narrativas do que penso.

Rita Silvestre
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"How Many Universes Did You Cross Today?" 2019Rita Silvestre
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Após o seu estágio, Rita está ativamente à procura de trabalho a tempo inteiro. A sua decisão é influenciada pela independência que conquistou em apenas seis meses. Planeia no futuro trabalhar fora assim que surgir a oportunidade e de perseguir o desejo de estudar marketing como forma de enriquecer a sua prática. "Adoro o Porto, para sempre vai ser a minha cidade, mas neste momento eu não quero estabilizar, se eu não tiver trabalho aqui posso ir para Barcelona posso ir para Berlim. Estou numa altura de mudança."

"Who Needs Balance?" 2019Rita Silvestre
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