— O que estás a fazer agora, pós-faculdade?

Quando acabei a faculdade decidi candidatar-me para estágios fora de Portugal. Consegui este estágio profissional na VBAT, em Amesterdão, enquanto creative intern: é uma empresa de Design Gráfico onde podia optar entre identidades corporativas ou packaging (áreas em que são especializados). Aqui tenho um papel mais forte que permite-me ir mais além do que eu esperava. Acho que na Holanda eles pensam no estagiário como uma ferramenta fundamental que ajude a florescer a empresa na produção conceptual e de brainstormings de projetos.

— O que é que te levou a fazer um estágio fora de Portugal?

No meu terceiro ano participei no programa Erasmus+: conheci novas culturas, novas maneiras de pensar, uma língua diferente e toda essa experiência alargou os meus horizontes, não só na minha vida pessoal como também a uma minha vida profissional. A forma que o design é abordado em Belas Artes é diferente da forma que aprendi em Inglaterra na altura, mas ambos enriqueceram o meu trabalho. Então decidi ‘é agora ou nunca!’: fora estás a aprender todos os dias, não só a nível profissional, como a nível pessoal, e acabas por sentir uma progressão muito mais acentuada, e é isso que vim procurar cá.

 

Sobre os prós e contras de fazer o estágio fora, Rita explicou-nos que, relativamente aos prós, na Holanda o cargo que exerce é considerado como uma ferramenta muito importante, sente que o seu esforço é reconhecido. O estilo de vida que Amesterdão lhe proporciona também contribui para o seu conforto, salientando que o mindset é bastante avançado.


No entanto, referiu as dificuldades com a língua: apesar da acessibilidade na VBAT em específico (empresa mãe britânica), sente que em alturas quer dizer ou expressar algo e lhe é difícil. Notando a relativa facilidade tendo em conta a área que se enquadra, “no Design (e na Arte) o pessoal comunica-se de alguma forma e acabas por dar sempre a volta”.

Rita Silvestre
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— Falando da parte financeira, e comparando com Portugal, consideras que o salário é mais adequado?

 

Sem dúvida, eles cá são super equilibrados e sabem balançar bem as coisas. Imaginando que o salário mínimo cá é 1.600 € e que pagas 700 € por um quarto, ainda tens dinheiro para pagar as contas e para comer, tens dinheiro para sair, para beber uma cerveja com os teus amigos (mesmo que a cerveja seja quase um rim). Essa estabilidade financeira também te faz um bocadinho mais feliz e mais confortável.

 

No último ano da faculdade, a designer fez um estágio de contexto académico no Studio Eduardo Aires e falou-nos das diferenças entre os dois estágios (estúdio vs. empresa). Nota um claro respeito pelo Designer português e o seu estilo impregnado pelo qual os trabalhos se regem. O foco principal do studio é editorial e branding, onde foram ensinadas inúmeras regras dos ‘porquês’ e as suas funções.  

 

E no verão de 2018, Rita estagiou na SONAE, empresa portuguesa de grande dimensão. Neste trabalho aprendeu principalmente sobre business, onde o Design é dependente dos restantes departamentos para o seu desenvolvimento.

A designer entende que numa empresa como a SONAE, o cargo do designer tem menos importância pois é algo que a seu ver é ‘substituível’ pelo marketeer, apesar de enfatizar que o ideal seria ambos trabalharem em sintonia e simbiose. 

 

Reconhece na VBAT e no Studio Eduardo Aires uma dedicação mais dirigida ao design, enquanto que uma empresa como a SONAE tem uma perspetiva diferente pois envolve diversos departamentos — de marketing, de gestão e de gestão de projetos. Existe um estudo mais aprofundado e detalhado do trabalho pretendido e dos seus contextos, transmitindo para o departamento de Design o que é importante comunicar para produzir algo mais direcionado. Explica que esta perspectiva advém da sua experiência pessoal: “Eu sinto que o design cá (na VBAT) é uma ferramenta super essencial e assertiva, mas na SONAE, não há cá muitas partes super conceptuais“.

Rita Silvestre
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— Depois da licenciatura, sentiste ou sentes alguma pressão na decisão que tomaste?

 

Senti pressão comigo mesma enquanto estava a acabar a licenciatura, algo somente meu, porque não queria estancar, parar é algo que me faz confusão. Eu já estava a pensar ‘vou sair da licenciatura e vou entrar em mestrado’, por isso andei a pesquisar imensas faculdades e encontrei a que eu realmente queria, e ainda quero fazer: Mestrado em Gestão do Design no IPAM, para aprender mais sobre estratégia e marketing para aplicar no meu design. Mas depois, de repente, tive a ótima surpresa que o meu mestrado não ia abrir neste ano. 

 

Entretanto soube do programa ERASMUS+ Internship, e decidi enviar currículos feita maluca para imensos países até que recebi uma resposta da VBAT, em Amsterdão. Foi inacreditável, e assim que acabei a licenciatura, mudei-me logo para a Holanda. 

 

Claro que tive medo de sair da faculdade, mas  com a pressão e o medo ganhei essa atitude de me desenrascar.

Rita Silvestre
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— Falaste que o design corporativa é o que mais te interessa. O que é que no design te inspira para o continuares a fazer?

Rita Silvestre
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—  Sentes falta do controlo que tinhas nos teus projectos agora que tens de encontrar um equilíbrio entre o que o cliente quer e o design com que te identificas?

 

O que senti da faculdade é ‘o tema é este, agora faz’, e claro que aí tens sempre o teu cunho pessoal. Aqui no mercado de trabalho só tens total controlo se fores freelancer (no entanto é difícil sê-lo). Mas numa empresa, a nível visual, acabas por ser neutralizado de certa forma. O projecto tem de ser eficaz para o que o cliente quer e trabalhas com outros designers, por isso nunca vais ser capaz de identificar o meu trabalho ou o trabalho de outro designer. Mas eu acho isso bonito. Toda a gente acaba por ter uma influência no projecto, as ideias surgem e são desenvolvidas em equipa. Na verdade o trabalho em equipa é o culminar do melhor das ideias, é muito mais forte que cada um sozinho poderia criar. 

 

Ao ser questionada mais detalhadamente sobre a sua experiência com trabalho em equipa, especificamente para artistas freelancers, Rita reforça a necessidade de colaborações como método de crescimento e melhorar o seu portfólio através da contaminação das diversas áreas do Design.

— Queria que abordasses connosco um bocadinho sobre as tuas ilustrações, inspirações, etc.

 

Eu sempre tive uma relação um bocadinho estranha com a ilustração, nunca acreditei no que produzia. Também acho que como reconhecia que tínhamos muito bons ilustradores no nosso ano, nomeadamente a Amargo e o Lince Rebelo, tinha receio de divulgar e aventurar muito. Eu nunca vi a ilustração como compromisso, é como escrever para mim. Quando me dá um clique para escrever, eu não paro (noutro dia tive aqui no sofá três horas a tentar escrever)! E acho que ilustração também é assim, às vezes dá-me um clique sobre um assunto e eu faço uma ilustração. Ultimamente tento usar a ilustração para resolver assuntos e crio narrativas do que penso.

Rita Silvestre
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"How Many Universes Did You Cross Today?" 2019Rita Silvestre
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"Who Needs Balance?" 2019Rita Silvestre
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